Conceitos da A.P. / Exemplos Práticos - Pegadinhas de Concursos

22 novembro 2013
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Dicas Uteis

 

Nesta postagem quero explicar um pouco sobre alguns conceitos importantes da Análise de Pegadinhas. Esta técnica ou disciplina foi criada diretamente a partir da prática. A prática de analisar questões com armadilhas, mas prestando atenção não apenas na armadilha em si, mas também na forma como a questão foi construída, isto é, que elementos ou formas sintáticas foram nela inseridos para transformá-la em pegadinha.

Ou seja, ao contrário do que geralmente acontece em muitos campos não se partiu de uma teoria para testar hipóteses ou conceitos através de pesquisas para depois aplicar os resultados na prática. Comecei analisando logo as questões e as pegadinhas. E isto por um motivo muito simples: não era apenas uma questão de descobrir algo novo ou realizar uma “pesquisa científica”. Eu precisava estudar também o conteúdo para passar nos concursos que queria fazer.

Como eu já tinha percebido que os melhores candidatos quase sempre perdiam pontos nas questões com pegadinhas resolvi dar uma atenção especial ao estudo desse tipo de questão. E aí as semelhanças foram aparecendo e a coisa foi ficando cada vez mais interessante. Para dar conta do que eu ia descobrindo tive que criar vários conceitos “teóricos” que na verdade nada mais eram do que ferramentas que eu poderia usar em outras questões para entender melhor como as pegadinhas tinham sido feitas.

A parte boa disso tudo é que esses conceitos me ajudaram muito a entender o universo das pegadinhas e para minha surpresa contribuíram também para que eu inconscientemente desenvolvesse uma habilidade para reconhecer armadilhas onde que que elas surgissem. Tanto que acabei sendo aprovado em um dos concursos para um cargo que desejava.

Mas a parte não tão boa, é que eu estava usando esses conceitos, que se mostraram muito úteis para consumo próprio. Nunca tive tempo de escrever sobre eles, e assim era obrigado a explicar cada um deles junto com as questões que eu analisava quando aparecia a oportunidade.

Um dos conceitos mais importantes da Análise de Pegadinhas é o de “Vizinhança Semântica” porque um grande número de pegadinhas em questões jurídicas utiliza isso para tentar induzir os candidatos a errarem. Vejamos um exemplo:


O contrato segundo o qual alguém recebe de outrem poderes para, em seu nome, praticar atos ou administrar interesses, denomina-se:

 

(A) gestão de negócios

(B) delegação

(C) mandato

(D) procuração

 

Este exemplo foi retirado de um site especializado em concursos públicos, Infelizmente não havia nenhuma menção ao certame, ano ou banca relacionados à questão proposta.

De qualquer forma esta é uma típica armadilha que poderia aparecer em provas para funções de nível médio. Porém, dificilmente a veríamos em uma prova para cargos mais especializados da área jurídica, como Juiz ou Procurador, pois de acordo com o princípio da relatividade das pegadinhas é necessário que exista na estrutura da questão, algo que dificulte o entendimento por parte do candidato daquilo que lhe está sendo cobrado.

Uma pessoa formada e com vivência em Direito já está familiarizada com as sutis diferenças entre esses conceitos e portanto não há na questão nenhum obstáculo ao seu entendimento. Logo para esse tipo de candidato não há que se falar em pegadinha.

Isso significa que o conceito de relatividade da pegadinha está diretamente relacionado ao conceito de alvo ou destinatário da mesma.

Já o candidato de nível médio ou formado em área distinta da jurídica terá mais dificuldade em perceber o significado exato de cada conceito assim como as tênues diferenças entre eles. Isso acontece porque todos encontram-se dentro do mesmo espaço ou campo semântico.


Entenda o que é Vizinhança Semântica:

Um exemplo mais concreto servirá para explicar melhor. Laranja, tangerina e limão encontram-se no mesmo campo semântico e estão muito próximos uns dos outros.

Podemos afirmar também que as palavras acerola e melancia também fazem parte desse campo semântico. Porém, observe que apesar disso encontram-se mais “afastadas”, pois ainda que também sejam frutas (mesmo campo semântico) não são cítricas como as primeiras e portanto o seu grau de vizinhança semântica com elas é menor.

Na questão que usei como exemplo, as quatro opções de resposta encontram-se todas no mesmo campo semântico, pois referem-se à responsabilidade assumida por alguém para de alguma forma, cuidar dos negócios de outra pessoa.

No entanto, a delegação implica também em uma relação hierárquica que não existe no caso das outras alternativas. Por sua vez, a gestão de negócios (no sentido explícito em que a expressão é usada nem Direito Civil) é uma relação desprovida de formalidade ou caráter oficial, o que não ocorre no caso do mandato e da procuração.

Por isso, embora todas as opções de resposta encontrem-se a grosso modo, no mesmo campo semântico, a vizinhança entre mandato e procuração é muito maior uma vez que ambos:

 – Revestem-se de oficialidade
 – São geralmente necessários à constituição de uma ação
 – Não pressupõem uma relação hierárquica entre as partes
 – Com frequência, ainda que incorretamente, são usados na linguagem cotidiana como se fossem sinônimos.
 – O mandato (no Direito Civil) é um tipo de contrato pelo qual uma pessoa recebe de outra poderes para praticar determinados atos ou administrar interesses em seu nome.

A procuração, por sua vez, é o instrumento do mandato. O primeiro se refere à relação/acordo considerados de forma abstrata. A segunda é a expressão dessa relação concretizada materialmente em um documento.

Caso o candidato não tenha clara consciência dessa diferença entre os significados de cada um, a grande proximidade semântica entre ambos, fará com que sua mente busque associações que tenderão a identificá-los como sendo iguais. Mesmo que o candidato elimine as duas primeiras alternativas, terá dificuldade em decidir entre (C) e (D).

A análise desta questão, que também é uma análise do conceito de Vizinhança ou Similaridade semântica, amplamente utiizado na Análise de Pegadinhas, apresenta ainda outro aspecto dessa disciplina: a importância de se levar em consideração os processos subjetivos, muitas vezes inconscientes que podem ocorrer na mente do candidato e induzi-lo a errar a questão.

Não conheço qualquer tipo de análise de questões de concursos que leve esse fator em conta. É possível que isso não possa ter nenhuma validação “científica”, mas é algo que está muito próximo à realidade do candidato. Qualquer um, ao revisar uma questão com pegadinha na qual tenha marcado a resposta errada, será capaz de reviver passo-a-passo a linha de raciocínio equivocada que seguiu, provavelmente induzido pela estrutura ardilosa como a questão foi elaborada.

A AP simplesmente tenta desvendar (e se possível antecipar) esse processo, pois uma vez identificado fica eliminada a possibilidade do candidato “cair” na pegadinha através daquele tipo de raciocínio.

Ao mesmo tempo ele vai desenvolvendo a habilidade de reconhecer estruturas semelhantes em outras questões que possam vir a induzí-lo a adotar uma linha de raciocínio semelhante.

Resposta: (C)

 

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